No início deste primeiro trimestre de 2026, enquanto os principais blocos econômicos consolidam seus balanços de produtividade, um debate central ganha urgência fora do circuito acadêmico: a correlação direta entre a literacia financeira e a resiliência das Pequenas e Médias Empresas (PMEs). Enquanto o relatório de competitividade da União Europeia aponta a educação financeira como um ativo de infraestrutura, o Brasil enfrenta o desafio de converter o empreendedorismo de sobrevivência em estratégia de crescimento sustentável.
Para Alessandra Santos Alves Ferreira, executiva do setor financeiro, especialista em governança e cofundadora da associação Multiplicando Sonhos, o cenário global oferece um diagnóstico pragmático. “A diferença entre mercados maduros e emergentes não reside apenas no volume de capital disponível, mas na capacidade cognitiva de gerir esse capital. A alfabetização financeira é o novo multiplicador de valor: ela define quem escala e quem sucumbe à volatilidade”, afirma.
O Benchmark Europeu: Conhecimento como Garantia Colateral
O relatório europeu de 2026 introduz um conceito inovador: a “Resiliência Financeira Sistêmica”. No bloco europeu, a educação financeira para empreendedores deixou de ser vista como um programa social para se tornar uma ferramenta de mitigação de risco de crédito.
“A Europa consolidou o entendimento de que o domínio técnico das finanças pelo gestor é uma garantia colateral tão relevante quanto os ativos físicos da empresa”, observa Alessandra. “Lá, a literacia financeira é integrada aos hubs de inovação para garantir que o capital injetado não seja drenado por ineficiências operacionais. No Brasil, a desconexão entre o ‘saber produzir’ e o ‘saber gerir’ ainda é o nosso maior gargalo de produtividade.”
Brasil: Sofisticação Regulatória e o Desafio da CVM 175
Ao correlacionar o contexto global com o cenário brasileiro, Alessandra destaca que o país vive um momento de inflexão regulatória com a plena maturidade da Resolução CVM 175. Para a especialista, a nova arquitetura do mercado de capitais brasileiro exige que o pequeno e médio empresário saia da “gestão de caixa” básica para a “gestão de ativos estratégica”.
“A sofisticação das regras de transparência e governança imposta pela CVM 175 é um esforço para aproximar o Brasil dos padrões globais, mas ela cria um abismo para quem não possui literacia financeira. Sem o domínio técnico dessas novas camadas regulatórias, o empreendedor brasileiro continua excluído por complexidade, perdendo competitividade frente a players internacionais”, critica Alessandra.
Empreendedorismo como Estratégia, não Lotería
Para a executiva, o custo da ineficiência financeira no Brasil é mensurável em menor produtividade e desperdício de capital humano. Enquanto o plano europeu foca em sofisticação de portfólio para PMEs, o Brasil ainda lida com a mortalidade empresarial precoce por erros de fluxo de caixa e confusão patrimonial.
“Criar um CNPJ é um ato burocrático; sustentar a viabilidade econômica é um ato de governança. O analfabetismo financeiro opera como um freio silencioso: empresas subcapitalizadas e decisões de curto prazo são sintomas de uma base educacional frágil. No agregado, isso se traduz em um risco sistêmico que compromete a resiliência da economia nacional”, resume.
O Custo de não Agir: Uma Agenda de Interesse Nacional
A visão de Alessandra é pouco indulgente quanto à procrastinação dessa pauta. Para ela, a educação financeira deve ser tratada como política de Inclusão Econômica Estratégica.
“Não se combate desigualdade apenas com transferência de renda, mas com a transferência de ferramentas cognitivas para a gestão do dinheiro. O conhecimento financeiro é o que permite ao indivíduo e ao empresário não desperdiçar janelas de oportunidade”, afirma. “A Europa está ajustando suas políticas para 2026 com base nessa premissa. O Brasil precisa entender que a literacia financeira não é um luxo, é a infraestrutura necessária para que o empreendedorismo deixe de ser uma aposta e se torne um motor real de PIB.”
Perfil — Alessandra Santos Alves Ferreira
Alessandra Santos Alves Ferreira é executiva de liderança estratégica no setor financeiro, com trajetória sólida em instituições de importância sistêmica como o Itaú Unibanco, onde atua na governança de orçamentos de alta magnitude (R$ 120 milhões) e eficiência de custos. Especialista em engenharia de governança e cofundadora da Multiplicando Sonhos, possui pós-graduação pela FGV (com distinção acadêmica) e é autora de análises técnicas sobre o marco regulatório da CVM 175. Sua atuação integra o rigor das finanças corporativas ao desenvolvimento de metodologias de educação financeira focadas em produtividade, competitividade e mobilidade social.
