Por José Eduardo Leite – convidado especial – nutricionista formado pela USP (Universidade de São Paulo) de Ribeirão Preto e especialista em nutrição esportiva, obesidade e saúde metabólica
Em 2025, o mundo vive uma contradição evidente: nunca tivemos tanto acesso à informação sobre saúde e, ao mesmo tempo, nunca estivemos tão doentes. Segundo a Organização Mundial da Saúde, uma em cada oito pessoas no planeta vive com obesidade e mais de 2,5 bilhões de adultos estão com sobrepeso, o que representa cerca de 43% da população mundial. O número de adolescentes obesos quadruplicou desde 1990, e nas Américas dois terços dos adultos apresentam excesso de peso, um indicador de que o problema deixou de ser individual e tornou-se um fenômeno coletivo, silencioso e persistente. Essa é a verdadeira epidemia invisível, alimentada por hábitos modernos, alimentação ultraprocessada, sedentarismo e uma desconexão crescente entre conhecimento científico e comportamento cotidiano.
A obesidade é uma doença crônica complexa, multifatorial e frequentemente negligenciada, pois ainda é tratada socialmente como um problema estético. No entanto, o acúmulo excessivo de gordura corporal é apenas a superfície visível de um processo metabólico desajustado, que envolve inflamação, resistência à insulina e desequilíbrio hormonal. Em minha prática clínica, vejo que muitos pacientes chegam com exames que evidenciam alterações significativas muito antes de qualquer sintoma aparente, o que mostra como o corpo tenta alertar, mas raramente é escutado a tempo. A falta de monitoramento preventivo e o tratamento tardio transformam o que poderia ser ajustado com educação e acompanhamento em uma crise de saúde pública com impacto físico, emocional e econômico.
O Índice de Massa Corporal, ainda utilizado como parâmetro global, é um marcador limitado, pois não distingue composição corporal nem considera aspectos metabólicos e inflamatórios. Por isso, a interpretação de exames laboratoriais é essencial para compreender o que realmente acontece no organismo. Avaliar glicemia, perfil lipídico, marcadores hepáticos e inflamatórios permite identificar padrões precoces de disfunção metabólica e agir antes que a doença se instale de forma crônica. Essa é a essência da nutrição baseada em evidências: unir ciência e personalização para traduzir dados clínicos em estratégias práticas, acessíveis e eficazes.

Ao longo dos anos, percebi que a obesidade raramente é resultado de falta de disciplina, mas de um conjunto de fatores ambientais, sociais e emocionais que moldam escolhas diárias. A OMS (Organização mundial da saúde) define essa condição como uma consequência de ambientes obesogênicos, marcados pela abundância de alimentos ultraprocessados, pela escassez de tempo e pela dificuldade de acesso a orientações individualizadas. Vivemos em uma sociedade que estimula o excesso e culpa o indivíduo pelos efeitos desse próprio ambiente. Enquanto isso, as doenças metabólicas avançam de forma silenciosa e, segundo a OMS, já são responsáveis por cerca de 3,7 milhões de mortes anuais em decorrência do IMC elevado e hábitos ruins.
No Brasil, a realidade não é diferente. A rotina acelerada, o consumo de refeições industrializadas e a falta de sono de qualidade formam um cenário propício à disfunção metabólica. Quando falo de nutrição, não me refiro a dietas restritivas, mas a compreender como o corpo reage a cada alimento, a cada hábito e a cada escolha. É nesse ponto que o trabalho de interpretação dos exames laboratoriais se torna determinante, pois transforma o cuidado nutricional em um processo de autoconhecimento. O paciente que entende seus próprios resultados aprende a reconhecer o que está por trás do cansaço, da fome descontrolada e da dificuldade em perder peso, e a partir daí encontra motivação para manter o equilíbrio.
A prevenção deve ser o eixo central das políticas públicas e também da prática clínica. É preciso mudar o olhar sobre a nutrição e a saúde metabólica, passando de uma atuação corretiva para uma abordagem preditiva, que usa tecnologia, dados e acompanhamento contínuo. Tenho defendido que o futuro da nutrição está na integração entre inteligência artificial, exames laboratoriais e educação em saúde, permitindo que cada pessoa tenha acesso a informações precisas e decisões orientadas por evidências. Isso não substitui o profissional, mas amplia a capacidade de cuidar.
As projeções da OMS indicam que, se nada for feito, o custo global da obesidade pode ultrapassar três trilhões de dólares por ano até 2030. Mas o impacto mais profundo não é econômico, é humano. Trata-se de uma geração que cresce adoecida antes da idade adulta, de sistemas de saúde sobrecarregados e de uma sociedade que normalizou o mal-estar como parte da rotina. Reverter esse quadro exige que ciência e empatia caminhem juntas, transformando dados em diálogo e informação em prática.
Como nutricionista, acredito que o combate à obesidade começa quando enxergamos o paciente além do peso e entendemos que cada exame é uma conversa entre o corpo e a mente. Escutar esses sinais, compreender os padrões e agir com base em evidências é o que define o futuro da saúde metabólica. A epidemia invisível pode ser contida, mas depende de um compromisso coletivo com a educação, a tecnologia e o conhecimento. Afinal, a verdadeira mudança acontece quando a ciência deixa de estar apenas nos laboratórios e passa a fazer parte das escolhas de cada pessoa, todos os dias.
Texto criado por Nathalia Pimenta
Supervisão jornalística aprovada por Radija Matos