Avanço dos veículos eletrificados reorganiza a demanda e acelera a digitalização da infraestrutura nacional
A eletrificação da frota deixou de ser tendência futura e passou a impactar de forma concreta o mercado de combustíveis brasileiro. Estudos internacionais mostram que as vendas globais de carros elétricos cresceram 35 por cento em 2023, atingindo 14 milhões de unidades e representando 18 por cento do total de automóveis vendidos no mundo. No Brasil, os veículos leves eletrificados já ultrapassam 500 mil unidades acumuladas entre 2012 e 2025, com participação que varia entre 8 e 9,3 por cento das vendas mensais de novos modelos neste ano.
Segundo o engenheiro Flávio Costa, fundador da AtonSystems e especialista em softwares de gestão para postos de combustíveis, a diversificação da frota modifica a dinâmica operacional das redes de abastecimento. “Os postos trabalham com margens reduzidas e grande variação de fluxo. Quando o perfil dos veículos muda, a previsibilidade diminui e a tecnologia passa a ser essencial para organizar abastecimento, automação e controle de estoques”, afirma. Ele acrescenta que a busca por eficiência cresce à medida que o consumidor adota novas formas de mobilidade.
A transição ocorre em um país com uma frota circulante superior a 47 milhões de autoveículos leves e pesados, dentro de um total próximo de 124 milhões de registros. Os eletrificados ainda representam uma parcela reduzida, mas em expansão acelerada. Para o setor de combustíveis, isso significa conviver com demanda relevante por gasolina, etanol e diesel por muitos anos, porém com redução do ritmo de crescimento e necessidade de maior planejamento.

Projeções da indústria indicam que, em 2030, as vendas de veículos elétricos e híbridos devem superar as de modelos exclusivamente a combustão no Brasil. Planos energéticos oficiais estimam que a frota elétrica poderá alcançar 3,7 milhões de unidades em 2035, modificando o padrão de consumo e exigindo adaptações na infraestrutura de abastecimento.
Essa transformação já aparece na expansão dos pontos de recarga. O país ultrapassou a marca de 10 mil eletropostos públicos e semipúblicos em 2024 e chegou a cerca de 16,8 mil pontos em 2025. A distribuição, porém, ainda é concentrada no Sudeste, o que impulsiona investimentos em corredores rodoviários, estacionamentos privados e áreas de grande circulação.
Para especialistas, a convivência entre combustíveis líquidos e energia elétrica exige que os postos adotem o modelo multienergia. Nessa configuração, recarga, abastecimento convencional e serviços complementares precisam funcionar de maneira integrada para manter competitividade. O uso de sistemas de gestão avançados, análise de dados e automação se torna determinante para organizar operações e reduzir custos.
Para consumidores, a decisão entre veículos convencionais e eletrificados envolve a avaliação do custo total de propriedade, da oferta de recarga nas rotas diárias e dos incentivos estaduais. Para proprietários de postos, recomenda-se mapear o perfil regional de mobilidade, modernizar sistemas internos, acompanhar indicadores de adoção da frota elétrica e buscar parcerias capazes de ampliar a oferta de serviços.
A eletrificação não encerra o mercado de combustíveis. Ela redefine sua lógica, abre novas frentes de negócio e impõe ao setor a necessidade de adaptação contínua. A próxima década deve marcar um longo período de convivência entre diferentes energias, exigindo planejamento antecipado e decisões estratégicas em toda a cadeia de abastecimento.